Paradoxo do brasileiro
O paradoxo do brasileiro define uma impossibilidade lógica.
De um lado está o nosso descontentamento e angústia, a nossa indignação e revolta generalizadas com a situação do país. Leio os artigos de opinião na imprensa, ouço as entrevistas no rádio e na TV, acompanho como posso o debate público, atento para o que se diz nas ruas, bares, táxis, ônibus e escritórios. Ninguém escapa. Por mais que procure, por mais que pergunte a quem conheço e a mim mesmo, não consigo encontrar um único brasileiro que não clame por mais ética e justiça, que não proteste contra o desperdício, a desigualdade e a ineficiência da nossa economia de cassino.
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Até aí tudo bem. Não precisamos perder tempo e papel para saber que há razões de sobra para ficarmos angustiados e indignados com a situação do país. O paradoxo (no qual obviamente me incluo) é o que vem depois.
Olhe ao redor. Vire a página. Compare, por exemplo, o que se escreve dia após dia nas páginas de opinião dos nossos principais jornais (como tem gente boa no Brasil!) com o teor do noticiário político, burlesco e criminal das páginas seguintes. O fosso agride. O fato é que existe uma inconsistência gritante — um hiato vertiginoso — entre, de um lado, o sentimento e o protesto generalizado de todos e de cada um de nós e, de outro, aquilo que somos em nossa vida coletiva.
O paradoxo do brasileiro é o seguinte: cada um de nós, isoladamente, tem o sentimento e a crença sincera de estar muito acima de tudo isso que aí está. Ninguém aceita, ninguém aguenta mais; nenhum de nós pactua com o mar de lama, o deboche e a vergonha da nossa vida pública e comunitária.
O problema é que, ao mesmo tempo, o resultado final de todos nós juntos é precisamente tudo isso que aí está!
A autoimagem de cada uma das partes — a ideia que cada brasileiro gosta de nutrir de si mesmo — não bate com a realidade do todo melancólico e exasperador chamado Brasil.
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O todo é menor do que a soma das partes. O brasileiro é sempre o outro, não eu.
Esse traço da psicologia moral brasileira tem longa e variada história. Sua presença, no entanto, não é uniforme ao longo do tempo. A distância entre o que cada um gosta de imaginar que é e aquilo que somos concretamente enquanto nação (ou ajuntamento) parece tornar-se maior e mais patente em determinadas ocasiões.
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De outro modo, isto é, quanto mais a realidade coletiva fede e ofende a nossa sensibilidade e autoestima, maior tende a ser nossa propensão a viver sob a égide do paradoxo descrito.
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O segundo depoimento foi dado por ninguém menos que o biólogo inglês Charles Darwin, por ocasião de sua passagem pelo Brasil na célebre viagem a bordo do Beagle. Darwin, que era um abolicionista fervoroso, fez diversas anotações em seu diário pessoal sobre a maneira como eram tratados os escravos brasileiros:
Perto do Rio de Janeiro fiquei hospedado próximo à casa de uma velha senhora que mantinha parafusos para esmagar os dedos de suas escravas.
Morei numa casa onde um jovem escravo doméstico era, diariamente e de hora em hora, xingado, surrado e perseguido de um modo que seria suficiente para quebrar o espírito de qualquer animal.
Vi um menino pequeno, de seis ou sete anos de idade, ser açoitado três ou quatro vezes na cabeça nua com um chicote de cavalo (antes que eu pudesse interferir), por ter me servido um copo d'água que não estava muito limpo.
E estas ações foram feitas e remediadas por homens que professam amar o próximo como a si mesmos, que creem em Deus e rezam para que Sua vontade seja feita sobre a Terra!
Embora todos se pronunciassem veementemente contra, e jamais tenha havido uma defesa pública e aberta da escravidão no Brasil (como ocorrera, aliás, no Sul dos Estados Unidos), fomos um dos últimos países do mundo — ao lado de Cuba — a aboli-la.
É como a má distribuição de renda, a impunidade e a deterioração do ensino básico hoje em dia: unanimidades nacionais.
Ferocidade verbal, intenções generosas e sentimentos calorosos sempre tivemos de sobra.
Mas a realidade — singelo detalhe — segue seu curso no contrafluxo de tudo isso.
Giannetti escreveu este prefácio em 1993, com o impeachment do Collor ainda quente. Publiquei o trecho em agosto de 2016, no meio do impeachment da Dilma. Releio agora, em 2026. Nas três vezes o texto descreveu o presente sem precisar de um ajuste sequer. Não é elogio à permanência do problema: é o texto se cumprindo enquanto se lê, porque ele mesmo avisa que o paradoxo se acentua quanto mais a realidade coletiva ofende a nossa autoestima. Escolhi o texto pelo motivo que o próprio texto prevê.
Vale reparar no título do livro. Vícios privados, benefícios públicos? é a tese de Mandeville na Fábula das Abelhas, de 1714, com um ponto de interrogação colado no fim: a ganância e a vaidade de cada um acabariam produzindo prosperidade para todos. O paradoxo do prefácio é o espelho invertido dessa fórmula. Aqui há virtude privada gerando vício público, e a soma das boas intenções produz um resultado que nenhuma das parcelas reconhece como sua.
Trecho publicado originalmente em 4 de agosto de 2016, no blog anterior. A citação foi abreviada em julho de 2026; os cortes estão marcados com [...]. Giannetti registra dois depoimentos no prefácio; o primeiro, de Nelson Rodrigues, ficou de fora deste recorte. Grifos meus. Nota acrescentada em julho de 2026.