O problema político não oferece menor gravidade. Sob a pressão dos acontecimentos, a maior parte das instituições monárquicas desmoronam-se, e a democracia triunfante estendeu-se sobre suas ruínas; em seu seio, porém, surgiu uma crise intensa. Crescem e espalham-se os elementos da anarquia. Os destinos da ciência materialista e os do Socialismo atual estão em correlação; inspiram-se pelos mesmos métodos e pelas mesmas fórmulas.

É preciso convir, a democracia socialista de nossos dias está em desacordo com o próprio princípio da Revolução. Esta era essencialmente individualista; queria dar a cada um a livre iniciativa de seus atos pessoais.

O regímen atual age diferentemente; tende a nivelar as individualidades fortes, e a passar logicamente da igualdade de direito à igualdade de fato. Vai ao coletivismo, isto é, à negação da pessoa humana e à sua absorção no todo social.

O “Estadismo” não nos desembaçaria das mediocridades; bem ao contrário, seria por natureza o seu protetor. Não é também a regulamentação do trabalho, pela coletividade, que dará ao proletariado a felicidade que os utopistas do dia fazem luzir aos seus olhos.

Os homens são iguais, dir-se-á. Em seu sentido histórico restrito, a fórmula pode parecer exata; mas não se poderia tratar aqui de igualdade real, absoluta. Se os homens são iguais em direito, serão sempre desiguais em inteligência, faculdades, em moralidade. Afirmar o contrário seria negar a lei da evolução, que, naturalmente, não age com a mesma eficácia sobre todos os indivíduos.

O homem livre na terra livre! Tal será o ideal social do futuro. Mas é preciso ter em conta a necessidade preliminar de outro fator — a Fraternidade — que só pela harmonia pode estar em equilíbrio com a liberdade.

Denis escreveu isto antes de 1914, num capítulo chamado “A Missão do Século XX”. O século XX aconteceu, e é possível conferir a previsão: uma parte dela se cumpriu de forma sombria, outra não.

Trecho publicado originalmente em 2012, no blog anterior. Nota acrescentada em julho de 2026.