<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xml:lang="pt-BR"><generator uri="https://jekyllrb.com/" version="3.10.0">Jekyll</generator><link href="https://singelasreferencias.com.br/feed.xml" rel="self" type="application/atom+xml" /><link href="https://singelasreferencias.com.br/" rel="alternate" type="text/html" hreflang="pt-BR" /><updated>2026-07-23T17:32:22+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/feed.xml</id><title type="html">Singelas Referências</title><subtitle>Registro escrito de coisa ouvida, vista, lida ou pensada.</subtitle><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><entry><title type="html">A dúvida de Flammarion sobre a própria mediunidade</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2026/07/a-duvida-de-flammarion-sobre-a-propria-mediunidade/" rel="alternate" type="text/html" title="A dúvida de Flammarion sobre a própria mediunidade" /><published>2026-07-23T00:00:00+00:00</published><updated>2026-07-23T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2026/07/a-duvida-de-flammarion-sobre-a-propria-mediunidade</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2026/07/a-duvida-de-flammarion-sobre-a-propria-mediunidade/"><![CDATA[<blockquote>
  <p>No dia 02 de novembro de 1861 o jovem astrônomo Camille Flammarion, com apenas 19 anos de idade, apresentou uma carta a Kardec solicitando autorização para participar da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Ele já se interessava pelos fenômenos mediúnicos e estava escrevendo um livro, publicado no ano seguinte, intitulado <em>Os habitantes do outro mundo – Revelações do além-túmulo</em>, escrito a partir de comunicações da Srta. Huet.<sup id="fnref:1" role="doc-noteref"><a href="#fn:1" class="footnote" rel="footnote">1</a></sup></p>

  <p>Ao longo dos anos seguintes, Camille Flammarion participou ativamente da Sociedade de Paris, tendo psicografado vários textos que passaram a integrar os livros de Allan Kardec, dentre eles o icônico capítulo VI do livro <em>A Gênese</em>, intitulado Uranografia Geral, um extenso tratado de astronomia que ocupa 30 páginas no original francês. Psicografou também o item 15 do cap. IX, “Aumento e diminuição do volume da Terra”, ambos assinados pelo espírito Galileu Galilei. Astrônomo muito popular na França, mesmo após ter se desligado da Sociedade de Paris ele continuou estudando os fenômenos mediúnicos, do que resultaram alguns títulos entre os nada menos que 35 de sua autoria.</p>

  <p>Apesar dessa importante participação na elaboração do Espiritismo, em 1899 ele estava “mais convencido do que nunca de que somos muito ignorantes” a respeito da fenomenologia mediúnica. No que se refere ao seu próprio trabalho ele havia concluído que <strong>se tratava apenas de um fenômeno de exteriorização da sua própria mente</strong>, e que os conteúdos ali expressos eram apenas os conhecimentos que ele havia adquirido como astrônomo.<sup id="fnref:2" role="doc-noteref"><a href="#fn:2" class="footnote" rel="footnote">2</a></sup> De fato, o tempo havia deixado claro que os textos que ele havia psicografado na sua juventude não traziam quaisquer conteúdos que transcendessem ao que já se sabia sobre astronomia naquela época, os quais foram inteiramente reformulados antes de 1925, quando do seu falecimento, aos 83 anos de idade.</p>

  <p>Para se imaginar a amplitude dessas reformulações basta lembrar que em 1905, com base nas teorias das ondas eletromagnéticas de Maxwell, Albert Einstein publicou a Teoria Geral da Relatividade, impactando todo o conhecimento anterior sobre Física, Astronomia e Astrofísica.<sup id="fnref:3" role="doc-noteref"><a href="#fn:3" class="footnote" rel="footnote">3</a></sup></p>

  <p>[…] o que ele questionava era o processo mediúnico que, no seu entendimento, carecia de mais amplos estudos. Diversos pesquisadores já haviam demonstrado que a mente do médium responde por uma grande quantidade das comunicações atribuídas aos espíritos, e ele concluía que grande parte dos textos pretensamente psicografados <strong>por ele e seus colegas da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas</strong> poderiam ser apenas o resultado de processos anímicos, exteriorização da consciência dos próprios médiuns.</p>

  <p>Esses e inúmeros outros fatos nos obrigam a analisar se textos produzidos pela via mediúnica podem ser detentores de uma verdade a-histórica, transcendente, como se pensa.</p>
</blockquote>

<div class="comentario">

  <p>Guardo o trecho pelo que ele documenta, não pelo que conclui.</p>

  <p>O fato é este: o médium do capítulo VI de <em>A Gênese</em>, o tratado de astronomia assinado pelo espírito de Galileu, viveu o bastante para examinar a própria produção de juventude e concluiu que ali não havia nada além do que o rapaz de dezenove anos já sabia. Quem aplicou o teste foi ele mesmo, e o teste é o mais simples que existe: o texto trouxe alguma coisa que o médium não tinha como saber?</p>

  <p>Um contraponto que podemos fazer aqui é que nem toda comunicação precisa trazer novidades. <em>O Livro dos Espíritos</em> reúne 1019 questões, por exemplo: será que algum leitor esperaria novidade em todas elas? Muitas vezes a mediunidade vai confirmar verdades já conhecidas, ou trazer consolação a corações que sofrem. Por outras palavras, a não novidade de conteúdo não inviabiliza a verdade do fenômeno.</p>

  <p>Muito provavelmente, não foi esse o único critério de Flammarion. O que quero reforçar aqui é que o processo mediúnico pode ser mais complexo do que se imagina à primeira vista.</p>

  <p>Elias Moraes faz questão de precisar o alcance da retratação, e a precisão importa. Flammarion não negou o fenômeno nem abandonou a pesquisa, que o ocupou pelo resto da vida. Negou a <strong>atribuição</strong>: a confiança com que se lê uma assinatura no fim de um texto psicografado. E não falava só de si, mas dos colegas e do método da casa.</p>

  <p>Fica para depois o outro lado da questão, que é ler o próprio Flammarion. <em>As Forças Naturais Desconhecidas</em> está citado aí em nota e é o lugar onde ele diz isso com as próprias palavras. Comentar um autor pela boca de quem o cita é começo de conversa, não fim.</p>

  <p class="datacao">Trechos de <em>O Processo Mediúnico</em>, de Elias Inácio de Moraes (Aephus, 2023), reproduzidos para fim de comentário, nos termos do art. 46, III, da Lei 9.610/98. Os dois grifos em negrito no trecho são meus. As notas 1 e 2 são do original; a nota 3 é minha. O <code>[...]</code> no quinto parágrafo suprime uma frase de abertura que atribui a posição contestada a interlocutores não identificados.</p>

</div>
<div class="footnotes" role="doc-endnotes">
  <ol>
    <li id="fn:1" role="doc-endnote">
      <p>Nota do original: Seth, Carlos. <em>Investigação sobre as Sessões Mediúnicas da Codificação – Casos Arquivados</em>. Artigo disponível em 05/07/2022 em www.autoresespiritasclassicos.com. <a href="#fnref:1" class="reversefootnote" role="doc-backlink">↩</a></p>
    </li>
    <li id="fn:2" role="doc-endnote">
      <p>Nota do original: Flammarion, Camille. <em>As Forças Naturais Desconhecidas</em>, pág. 44. Trad. Maria Alice F. Antonio, Ed. Conhecimento, Limeira/SP, 2011. <a href="#fnref:2" class="reversefootnote" role="doc-backlink">↩</a></p>
    </li>
    <li id="fn:3" role="doc-endnote">
      <p>Nota minha, não do original: 1905 é o ano da relatividade <strong>restrita</strong>. A relatividade <strong>geral</strong> é de 1915. A troca não afeta o argumento do autor, que é a magnitude da reformulação ocorrida em vida de Flammarion, mas convém não repetir a data errada em citação de segunda mão. <a href="#fnref:3" class="reversefootnote" role="doc-backlink">↩</a></p>
    </li>
  </ol>
</div>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[Trecho de O Processo Mediúnico, de Elias Inácio de Moraes, sobre Camille Flammarion, médium do capítulo VI de A Gênese, e a conclusão a que ele chegou em 1899 a respeito do próprio trabalho psicográfico.]]></summary></entry><entry><title type="html">Estudo</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2026/07/estudo/" rel="alternate" type="text/html" title="Estudo" /><published>2026-07-16T00:00:00+00:00</published><updated>2026-07-16T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2026/07/estudo</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2026/07/estudo/"><![CDATA[<blockquote>
  <p>O estudo é a fonte de suaves e nobres prazeres; liberta-nos das preocupações vulgares e nos faz esquecer as tribulações da vida. O livro é um amigo sincero, bem-vindo tanto nos dias felizes quanto nos dias ruins. Referimo-nos ao livro sério, útil, que instrui, consola, anima e não ao livro frívolo que diverte e, com frequência, desmoraliza.</p>

  <p>Não nos compenetramos o bastante sobre o verdadeiro caráter do bom livro. É como uma voz que nos fala através dos tempos, relatando-nos os trabalhos, as lutas e as descobertas daqueles que nos precederam no caminho da vida e, em nosso proveito, aplainaram as asperezas.</p>

  <p><mark>Não será uma das raras felicidades desse mundo poder comunicar-se pelo pensamento com os grandes espíritos de todos os séculos e de todos os países? Eles puseram no livro o melhor da sua inteligência e do seu coração.</mark> Conduzem-nos pela mão através dos dédalos da História; guiam-nos para as altas regiões da Ciência, da Arte e da Literatura. Ao contato dessas obras, que constituem os mais preciosos bens da Humanidade, compulsando esses arquivos sagrados, sentimo-nos engrandecer; sentimo-nos orgulhosos de pertencer às raças que produziram tais gênios. A irradiação de seu pensamento estende-se sobre nossas almas, reaquece-as, exalta-as.</p>

  <p>Saibamos escolher bons livros e habituemo-nos a viver no meio deles, em relação constante com os espíritos de escol. Rejeitemos, com cuidado, os livros ignóbeis, escritos para lisonjear as paixões vis. Acautelemo-nos dessa literatura relaxada, fruto do sensualismo, que espalha atrás de si a corrupção e a imoralidade.</p>

  <p>A maioria dos homens diz amar o estudo e objeta que lhe falta tempo para a isso se dedicar. Entretanto, muitos deles consagram noites inteiras ao jogo e às conversações ociosas. Replica-se, também, que os livros custam caro e, entretanto, despende-se em prazeres fúteis e de mau gosto mais dinheiro do que seria necessário para se compor uma rica coleção de obras. E, além disso, o estudo da Natureza, o mais eficaz, o mais reconfortante de todos, não custa nada.</p>
</blockquote>

<p class="datacao">O destaque no terceiro parágrafo é meu.</p>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[Trecho do capítulo 53, de Depois da Morte, de Léon Denis, sobre o hábito do estudo e a escolha dos livros.]]></summary></entry><entry><title type="html">A Fazenda Modelo</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2018/03/a-fazenda-modelo/" rel="alternate" type="text/html" title="A Fazenda Modelo" /><published>2018-03-25T00:00:00+00:00</published><updated>2018-03-25T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2018/03/a-fazenda-modelo</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2018/03/a-fazenda-modelo/"><![CDATA[<p class="lead">Uma sala de fazenda em Pedro Leopoldo, um caderno, três ou quatro pessoas. Foi assim que chegaram alguns dos livros mais lidos da literatura espírita.</p>

<p><img src="/assets/img/fazenda-modelo.jpg" alt="Estrada de terra levando aos galpões de telha da Fazenda Modelo, com silo ao fundo, em Pedro Leopoldo." /></p>

<p class="datacao">A chegada à Fazenda Modelo, em Pedro Leopoldo (MG). Fotografia minha, de 2017.</p>

<h2 id="o-culto-do-evangelho-no-lar-da-família-joviano">O Culto do Evangelho no Lar da família Joviano</h2>

<p>Neio Lúcio é o autor espiritual de <em>Jesus no Lar</em>, <em>Alvorada Cristã</em> e <em>Mensagem do Pequeno Morto</em>. Em vida romana chamou-se Cneio Lucius, o venerando avô de Célia em <em>Cinquenta Anos Depois</em>. Mais tarde, encarnou como Artur Joviano.</p>

<p>Já desencarnado, era frequentador assíduo das reuniões do Culto do Evangelho no Lar da família Joviano, na Fazenda Modelo, em Pedro Leopoldo, comunicando-se pela mediunidade de Chico Xavier.</p>

<h2 id="quem-estava-na-sala">Quem estava na sala</h2>

<p>O detalhe que dá vertigem é a composição do grupo. Quem lê as obras encontra ali, encarnados, os personagens que conheceu nos livros:</p>

<div class="tabela">

  <table>
    <thead>
      <tr>
        <th>Presente na reunião</th>
        <th>Vínculo</th>
        <th>Aparece nos romances como</th>
      </tr>
    </thead>
    <tbody>
      <tr>
        <td>Rômulo Joviano</td>
        <td>filho de Neio Lúcio</td>
        <td>Helvídio Lucius, de <em>Cinquenta Anos Depois</em><br />Cirilo Davenport, de <em>Renúncia</em></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Maria Joviano</td>
        <td>nora de Neio Lúcio</td>
        <td>Alba Lucínia<br />Madalena Vilamil</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Chico Xavier</td>
        <td>médium</td>
        <td> </td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>

</div>

<p>Um pai desencarnado conversando com o filho encarnado, à mesa da própria casa, sobre uma história que os dois viveram juntos quinze séculos antes.</p>

<h2 id="os-cadernos-de-wanda">Os cadernos de Wanda</h2>

<p>Os diálogos trocados nessas reuniões foram reunidos por Wanda Joviano, neta de Artur Joviano, e organizados em três volumes:</p>

<ul>
  <li><em>Sementeira de Luz</em></li>
  <li><em>Sementeira de Paz</em></li>
  <li><em>Colheita do Bem</em></li>
</ul>

<p>É de um desses diálogos, na reunião de 3 de agosto de 1949, que vem o relato sobre o amparo de Paulo de Tarso a Emmanuel, assunto de <a href="/2018/03/paulo-o-mentor-de-emmanuel/">Paulo, o mentor de Emmanuel</a>.</p>

<h2 id="por-que-chico-beijava-o-chão">Por que Chico beijava o chão</h2>

<p>Foi também na Fazenda Modelo que se recebeu <em>Paulo e Estêvão</em>.</p>

<p>Muita gente não entendia por que Chico Xavier beijava o chão daquela casa depois de psicografar a obra. A razão só aparece quando se sabe quem esteve ali. Durante os meses em que o livro foi sendo recebido, os personagens que ele retrata estiveram espiritualmente naquela fazenda, na humilde cidade de Pedro Leopoldo: Paulo de Tarso, Estêvão, Pedro, Barnabé e tantos outros.</p>

<p>O gesto deixa de ser exagero de devoto e passa a ser a coisa mais razoável do mundo. Ele não estava beijando um assoalho. Estava se despedindo de uma sala que tinha sido, por alguns meses, um lugar de passagem.</p>

<p class="datacao">Publicado originalmente em 25 de março de 2018, no blog anterior.</p>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[As reuniões do Culto do Evangelho no Lar da família Joviano, em Pedro Leopoldo, e os personagens de Cinquenta Anos Depois e Renúncia que se sentavam à mesa.]]></summary></entry><entry><title type="html">Paulo, o mentor de Emmanuel</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2018/03/paulo-o-mentor-de-emmanuel/" rel="alternate" type="text/html" title="Paulo, o mentor de Emmanuel" /><published>2018-03-25T00:00:00+00:00</published><updated>2018-03-25T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2018/03/paulo-o-mentor-de-emmanuel</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2018/03/paulo-o-mentor-de-emmanuel/"><![CDATA[<p class="lead">Emmanuel viu Paulo de Tarso uma única vez em Roma. O que veio depois desse encontro atravessou séculos.</p>

<h2 id="o-encontro-na-porta-ápia">O encontro na Porta Ápia</h2>

<p>Numa mensagem recebida por Chico Xavier em Pedro Leopoldo, a 13 de março de 1940, Emmanuel conta o episódio:</p>

<blockquote>
  <p>Conheci-o, em Roma, nos seus dias de trabalho mais rude e de provações mais acerbas. Vi-o uma vez unicamente, quando um carro de Estado transportava o senador Públio Lêntulus, ao longo da Porta Ápia, mas foi o bastante para nunca mais esquecê-lo. Um incidente fortuito levara os cavalos a uma disparada perigosa, mas um jovem cristão, atirando-se ao caminho largo, conseguiu conjurar as ameaças. Avistamos, então, um pequeno grupo, onde se encontrava a sua figura inesquecível. Trocamos algumas palavras que me deram a conhecer a sua inteireza de caráter e a grandeza de sua fé.</p>

  <p>O fato ocorria pouco depois da trágica desencarnação de Lívia e eu trazia o espírito atormentado. As palavras de Paulo eram firmes e consoladoras. O grande convertido não conhecia a úlcera que me sangrava no coração; todavia, as suas expressões indiretas foram, imediatamente, ao fundo de minh'alma, provocando um dilúvio de emoções e de esclarecimentos.</p>
</blockquote>

<p><em>Emmanuel, mensagem de 13 de março de 1940, em</em> Amor e Sabedoria.</p>

<p>Repare em quem fala. O senador transportado no carro de Estado é o próprio Emmanuel: Públio Lentulus foi uma de suas encarnações. E a menção a Lívia não é detalhe de cenário: é a chave do texto inteiro.</p>

<h2 id="a-dívida-com-lívia">A dívida com Lívia</h2>

<p>Quem leu <em>Há Dois Mil Anos</em> se lembra das injustiças que Públio cometeu contra Lívia, que era seu grande amor. O que a narrativa deixa entrever, mas não mede, é o remorso que se abateu sobre ele depois.</p>

<p>Emmanuel chegou ao mundo espiritual profundamente desiludido com as oportunidades desperdiçadas. Como senador de Roma, poderia, com uma única palavra, ter alterado o rumo da história do Evangelho, impedindo a crucificação de Jesus. Não o fez.</p>

<p>É esse homem, não o convertido nem o benfeitor que conhecemos pelos livros, que morre em Pompeia sem consolo.</p>

<h2 id="o-amparo">O amparo</h2>

<p>Num diálogo da reunião de 3 de agosto de 1949, na Fazenda Modelo, Neio Lúcio conta o que aconteceu em seguida:</p>

<blockquote>
  <p>Também Paulo, na vida espiritual, jamais descansou. Quando o senador romano desencarnou, profundamente desiludido, em Pompeia, foi contemplado com os favores do sublime convertido.</p>
</blockquote>

<p>E, no mesmo diálogo:</p>

<blockquote>
  <p>Amparado pelo Apóstolo dos Gentios, conseguiu Públio Lêntulus transitar nas avenidas escuras da carne, em existências várias, até encontrar uma posição em que pudesse servir ao divino Mestre com o valor e o heroísmo daquela que lhe fora companheira no início da Era Cristã.</p>
</blockquote>

<p>O amparo não foi um gesto isolado. Estendeu-se por encarnações sucessivas, como faz um mentor, até que aquele espírito chegasse a um lugar de onde pudesse servir com a mesma estatura de Lívia.</p>

<h2 id="o-livro-como-gratidão">O livro como gratidão</h2>

<p>Em 1941, o mesmo espírito psicografa, pela mão de Chico Xavier, a obra que retrata os episódios do Cristianismo primitivo nas figuras de Estêvão e de Paulo.</p>

<p>Não é escolha de tema. Não é por acaso. É um homem escrevendo sobre quem o carregou nos momentos mais difíceis.</p>

<p>Isso explica também a tese do livro, que destoa da devoção convencional. Em <em>Paulo e Estêvão</em>, o Apóstolo não aparece como escolhido predestinado por Jesus, mas como alguém que conquistou sua grandeza por meio de lutas acerbas e ásperos testemunhos. Na apresentação, Emmanuel escreve:</p>

<blockquote>
  <p>Nosso escopo essencial não poderia ser apenas rememorar passagens sublimes dos tempos apostólicos, e sim apresentar, antes de tudo, a figura do cooperador fiel, na sua legítima feição de homem transformado por Jesus Cristo e atento ao divino ministério. […] Entre perseguições, enfermidades, apodos, zombarias, desilusões, deserções, pedradas, açoites e encarceramentos, Paulo de Tarso foi um homem intrépido e sincero, caminhando entre as sombras do mundo, ao encontro do Mestre que se fizera ouvir nas encruzilhadas da sua vida.</p>
</blockquote>

<p>Quem foi erguido de um fundo de poço não escreve sobre santos impecáveis. Escreve sobre alguém que também subiu.</p>

<h2 id="o-nome-da-vila">O nome da vila</h2>

<p>Há ainda um último indício, e ele está no mapa.</p>

<p>Além de ter vivido como Padre Damiano, conforme narrado em <em>Renúncia</em>, Emmanuel teria tido como uma de suas encarnações o Padre Manuel da Nóbrega. A vila fundada pelos jesuítas em 25 de janeiro de 1554 nasceu no dia em que o calendário litúrgico celebra a Conversão de São Paulo, e daí veio o nome que ela carrega até hoje.</p>

<p>Para quem aceita a identificação, a coincidência de datas ganha outra leitura: o mesmo espírito que Paulo amparou em Pompeia batizou, quinze séculos depois, a cidade que hoje leva o nome do Apóstolo.</p>

<hr />

<p>Emmanuel encerra a mensagem de 1940 com uma recomendação simples, que agora se lê de outro jeito:</p>

<blockquote>
  <p>Luzeiro da Fé viva, Paulo não pode ser olvidado em tempo algum. Seu vulto humano é o de todo homem sincero que se tocou de amor divino pelo Cordeiro de Deus. Lede-o sempre e não vos arrependereis.</p>
</blockquote>

<p class="datacao">Publicado originalmente em 25 de março de 2018, no blog anterior. Sobre a casa onde esses diálogos foram recebidos, ver <a href="/2018/03/a-fazenda-modelo/">A Fazenda Modelo</a>.</p>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[A ligação entre Emmanuel e o apóstolo Paulo de Tarso, do encontro na Porta Ápia ao amparo recebido por Públio Lentulus após a morte, e por que Paulo e Estêvão nasce dessa dívida.]]></summary></entry><entry><title type="html">Paradoxo do brasileiro</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2016/08/paradoxo-do-brasileiro/" rel="alternate" type="text/html" title="Paradoxo do brasileiro" /><published>2016-08-04T00:00:00+00:00</published><updated>2016-08-04T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2016/08/paradoxo-do-brasileiro</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2016/08/paradoxo-do-brasileiro/"><![CDATA[<blockquote>
  <p>O paradoxo do brasileiro define uma impossibilidade lógica.</p>

  <p>De um lado está o nosso descontentamento e angústia, a nossa indignação e revolta generalizadas com a situação do país. Leio os artigos de opinião na imprensa, ouço as entrevistas no rádio e na TV, acompanho como posso o debate público, atento para o que se diz nas ruas, bares, táxis, ônibus e escritórios. Ninguém escapa. Por mais que procure, por mais que pergunte a quem conheço e a mim mesmo, não consigo encontrar um único brasileiro que não clame por mais ética e justiça, que não proteste contra o desperdício, a desigualdade e a ineficiência da nossa economia de cassino.</p>

  <p>[…]</p>

  <p>Até aí tudo bem. Não precisamos perder tempo e papel para saber que há razões de sobra para ficarmos angustiados e indignados com a situação do país. O paradoxo (no qual obviamente me incluo) é o que vem depois.</p>

  <p>Olhe ao redor. Vire a página. Compare, por exemplo, o que se escreve dia após dia nas páginas de opinião dos nossos principais jornais (como tem gente boa no Brasil!) com o teor do noticiário político, burlesco e criminal das páginas seguintes. O fosso agride. O fato é que existe uma inconsistência gritante — um hiato vertiginoso — entre, de um lado, o sentimento e o protesto generalizado de todos e de cada um de nós e, de outro, aquilo que somos em nossa vida coletiva.</p>

  <p><strong>O paradoxo do brasileiro é o seguinte: cada um de nós, isoladamente, tem o sentimento e a crença sincera de estar muito acima de tudo isso que aí está.</strong> Ninguém aceita, ninguém aguenta mais; nenhum de nós pactua com o mar de lama, o deboche e a vergonha da nossa vida pública e comunitária.</p>

  <p>O problema é que, ao mesmo tempo, o resultado final de todos nós juntos é precisamente tudo isso que aí está!</p>

  <p>A autoimagem de cada uma das partes — a ideia que cada brasileiro gosta de nutrir de si mesmo — não bate com a realidade do todo melancólico e exasperador chamado Brasil.</p>

  <p>[…]</p>

  <p><strong>O todo é menor do que a soma das partes. O brasileiro é sempre o outro, não eu.</strong></p>

  <p>Esse traço da psicologia moral brasileira tem longa e variada história. Sua presença, no entanto, não é uniforme ao longo do tempo. A distância entre o que cada um gosta de imaginar que é e aquilo que somos concretamente enquanto nação (ou ajuntamento) parece tornar-se maior e mais patente em determinadas ocasiões.</p>

  <p>[…]</p>

  <p>De outro modo, isto é, quanto mais a realidade coletiva fede e ofende a nossa sensibilidade e autoestima, maior tende a ser nossa propensão a viver sob a égide do paradoxo descrito.</p>

  <p>[…]</p>

  <p>O segundo depoimento foi dado por ninguém menos que o biólogo inglês Charles Darwin, por ocasião de sua passagem pelo Brasil na célebre viagem a bordo do <em>Beagle</em>. Darwin, que era um abolicionista fervoroso, fez diversas anotações em seu diário pessoal sobre a maneira como eram tratados os escravos brasileiros:</p>

  <blockquote>
    <p>Perto do Rio de Janeiro fiquei hospedado próximo à casa de uma velha senhora que mantinha parafusos para esmagar os dedos de suas escravas.</p>

    <p>Morei numa casa onde um jovem escravo doméstico era, diariamente e de hora em hora, xingado, surrado e perseguido de um modo que seria suficiente para quebrar o espírito de qualquer animal.</p>

    <p>Vi um menino pequeno, de seis ou sete anos de idade, ser açoitado três ou quatro vezes na cabeça nua com um chicote de cavalo (antes que eu pudesse interferir), por ter me servido um copo d'água que não estava muito limpo.</p>

    <p>E estas ações foram feitas e remediadas por homens que professam amar o próximo como a si mesmos, que creem em Deus e rezam para que Sua vontade seja feita sobre a Terra!</p>
  </blockquote>

  <p>Embora todos se pronunciassem veementemente contra, e jamais tenha havido uma defesa pública e aberta da escravidão no Brasil (como ocorrera, aliás, no Sul dos Estados Unidos), fomos um dos últimos países do mundo — ao lado de Cuba — a aboli-la.</p>

  <p>É como a má distribuição de renda, a impunidade e a deterioração do ensino básico hoje em dia: unanimidades nacionais.</p>

  <p>Ferocidade verbal, intenções generosas e sentimentos calorosos sempre tivemos de sobra.</p>

  <p>Mas a realidade — singelo detalhe — segue seu curso no contrafluxo de tudo isso.</p>
</blockquote>

<div class="comentario">

  <p>Giannetti escreveu este prefácio em 1993, com o impeachment do Collor ainda quente. Publiquei o trecho em agosto de 2016, no meio do impeachment da Dilma. Releio agora, em 2026. Nas três vezes o texto descreveu o presente sem precisar de um ajuste sequer. Não é elogio à permanência do problema: é o texto se cumprindo enquanto se lê, porque ele mesmo avisa que o paradoxo se acentua quanto mais a realidade coletiva ofende a nossa autoestima. Escolhi o texto pelo motivo que o próprio texto prevê.</p>

  <p>Vale reparar no título do livro. <em>Vícios privados, benefícios públicos?</em> é a tese de Mandeville na <em>Fábula das Abelhas</em>, de 1714, com um ponto de interrogação colado no fim: a ganância e a vaidade de cada um acabariam produzindo prosperidade para todos. O paradoxo do prefácio é o espelho invertido dessa fórmula. Aqui há virtude privada gerando vício público, e a soma das boas intenções produz um resultado que nenhuma das parcelas reconhece como sua.</p>

  <p class="datacao">Trecho publicado originalmente em 4 de agosto de 2016, no blog anterior. A citação foi abreviada em julho de 2026; os cortes estão marcados com <code>[...]</code>. Giannetti registra dois depoimentos no prefácio; o primeiro, de Nelson Rodrigues, ficou de fora deste recorte. Grifos meus. Nota acrescentada em julho de 2026.</p>

</div>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[Trecho do prefácio de Vícios privados, benefícios públicos?, de Eduardo Giannetti, sobre a distância entre a indignação sincera de cada brasileiro e o resultado coletivo que todos produzem.]]></summary></entry><entry><title type="html">O problema político</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2012/06/o-problema-politico/" rel="alternate" type="text/html" title="O problema político" /><published>2012-06-07T00:00:00+00:00</published><updated>2012-06-07T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2012/06/o-problema-politico</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2012/06/o-problema-politico/"><![CDATA[<blockquote>
  <p>O problema político não oferece menor gravidade. Sob a pressão dos acontecimentos, a maior parte das instituições monárquicas desmoronam-se, e a democracia triunfante estendeu-se sobre suas ruínas; em seu seio, porém, surgiu uma crise intensa. Crescem e espalham-se os elementos da anarquia. Os destinos da ciência materialista e os do Socialismo atual estão em correlação; inspiram-se pelos mesmos métodos e pelas mesmas fórmulas.</p>

  <p>É preciso convir, a democracia socialista de nossos dias está em desacordo com o próprio princípio da Revolução. Esta era essencialmente individualista; queria dar a cada um a livre iniciativa de seus atos pessoais.</p>

  <p>O regímen atual age diferentemente; tende a nivelar as individualidades fortes, e a passar logicamente da igualdade de direito à igualdade de fato. Vai ao coletivismo, isto é, à negação da pessoa humana e à sua absorção no todo social.</p>

  <p>O “Estadismo” não nos desembaçaria das mediocridades; bem ao contrário, seria por natureza o seu protetor. Não é também a regulamentação do trabalho, pela coletividade, que dará ao proletariado a felicidade que os utopistas do dia fazem luzir aos seus olhos.</p>

  <p>Os homens são iguais, dir-se-á. Em seu sentido histórico restrito, a fórmula pode parecer exata; mas não se poderia tratar aqui de igualdade real, absoluta. Se os homens são iguais em direito, serão sempre desiguais em inteligência, faculdades, em moralidade. Afirmar o contrário seria negar a lei da evolução, que, naturalmente, não age com a mesma eficácia sobre todos os indivíduos.</p>

  <p>O homem livre na terra livre! Tal será o ideal social do futuro. Mas é preciso ter em conta a necessidade preliminar de outro fator — a <strong>Fraternidade</strong> — que só pela harmonia pode estar em equilíbrio com a liberdade.</p>
</blockquote>

<div class="comentario">

  <p>Denis escreveu isto antes de 1914, num capítulo chamado “A Missão do Século XX”. O século XX aconteceu, e é possível conferir a previsão: uma parte dela se cumpriu de forma sombria, outra não.</p>

  <p class="datacao">Trecho publicado originalmente em 2012, no blog anterior. Nota acrescentada em julho de 2026.</p>

</div>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[Trecho de O Grande Enigma, de Léon Denis, sobre o problema político, o coletivismo e a fraternidade como contrapeso da liberdade.]]></summary></entry><entry><title type="html">Pluralidade dos Mundos Habitados</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2012/04/pluralidade-dos-mundos-habitados/" rel="alternate" type="text/html" title="Pluralidade dos Mundos Habitados" /><published>2012-04-29T00:00:00+00:00</published><updated>2012-04-29T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2012/04/pluralidade-dos-mundos-habitados</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2012/04/pluralidade-dos-mundos-habitados/"><![CDATA[<h2 id="a-questão-55">A questão 55</h2>

<blockquote>
  <p><strong>55. São habitados todos os globos que se movem no espaço?</strong></p>

  <p>“Sim e o homem terreno está longe de ser, como supõe, o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição. Entretanto, há homens que se têm por espíritos muito fortes e que imaginam pertencer a este pequenino globo o privilégio de conter seres racionais. <strong>Orgulho e vaidade! Julgam que só para eles criou Deus o Universo.</strong>”</p>

  <p>Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos esses seres para o objetivo final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que habitamos fora duvidar da sabedoria de Deus, que não fez coisa alguma inútil.</p>

  <p>Certo, a esses mundos há de ele ter dado uma destinação mais séria do que a de nos recrearem a vista. Aliás, nada há, nem na posição nem no volume, nem na constituição física da Terra, que possa induzir à suposição de que ela goze do privilégio de ser habitada, com exclusão de tantos milhares de milhões de mundos semelhantes.</p>
</blockquote>

<h2 id="reflexão-de-emmanuel">Reflexão de Emmanuel</h2>

<p>Comentário lido em reunião pública de 6 de novembro de 1959, quando a corrida espacial começava.</p>

<blockquote>
  <p>Enquanto o homem se encaminha para a Lua, estudando-a de perto, comove-nos pensar que a Doutrina Espírita se referia à pluralidade dos mundos habitados, precisamente há mais de um século.</p>

  <p>Acresce notar, ainda, que os veneráveis orientadores da Nova Revelação, guiando o pensamento de Allan Kardec, fizeram-no escrever a sábia declaração:</p>

  <blockquote>
    <p>“Deus povoou de seres vivos todos os mundos, concorrendo esses seres ao objetivo final da Providência.”</p>
  </blockquote>

  <p>Sabemos hoje que moramos na Via-Láctea — a galáxia comparável a imensa cidade nos domínios universais. Essa cidade possui mais de duzentos milhões de sóis,<sup id="fnref:1" role="doc-noteref"><a href="#fn:1" class="footnote" rel="footnote">1</a></sup> transportando consigo planetas, asteróides, cometas, meteoros, aluviões de poeira e toda uma infinidade de turbilhões energéticos.</p>

  <p>Entre esses sóis está o nosso, modestíssimo foco de luz, considerando-se que Sírius, um de seus vizinhos, apresenta brilho quarenta vezes maior. E, acompanhando-o, a nossa Terra, com todo o cortejo de suas orgulhosas nações, tem a importância de uma “casa nos fundos”, visto que, se a Lua é satélite nosso, o Globo que nos asila é satélite pequenino desse mesmo Sol que nos sustenta.</p>

  <p>Viajando a luz com a velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo, gasta milhares de anos para atravessar, de um ponto a outro, o continente galáctico em que residimos.</p>

  <p>Mas os espelhos telescópicos do homem já conseguem assinalar a existência de milhões e milhões de outras galáxias, mais ou menos semelhantes à nossa, a se espraiarem na vastidão do Universo.</p>

  <p>Até agora, neste breve lembrete, nos reportamos simplesmente ao campo físico observável pelos homens encarnados, atreitos, como é natural, ao raio reduzido da percepção que lhes é própria, sem nos referirmos às esferas espirituais mais complexas que rodeiam cada planeta, quanto cada sistema.</p>

  <p>Nesse critério, vamos facilmente encontrar, em todos os círculos cósmicos, os seres vivos da asserção de Kardec, embora a instrumentação do homem não os divise a todos. Eles se desenvolvem através de inimagináveis graus evolutivos, cabendo-nos reconhecer que, em aludindo à pluralidade dos mundos habitados, não se deverá olvidar a gama infinita das vibrações e os estados múltiplos da matéria.</p>

  <p><strong>Temos, assim, no Espaço Incomensurável, mundos-berços e mundos-experiências, mundos-universidades e mundos-templos, mundos-oficinas e mundos-reformatórios, mundos-hospitais e mundos-prisões.</strong></p>

  <p>Saudamos, pois, o advento da nova era, em que o homem físico, valendo-se principalmente do rádio e do radar, do foguete e do cérebro eletrônico, pode incursionar além da Lua, auscultando, em regime de limitação, as faixas de matéria em que psiquicamente se entrosa.</p>

  <p>E desejando-lhe paz, a fim de que prossiga em suas arrojadas e preciosas perquirições, podemos assegurar que em todos os planos a consciência acordada à luz da razão e da responsabilidade surpreenderá sempre, por base de todo aperfeiçoamento moral, o preceito do Cristo que coloca “o amor a Deus e ao próximo” como sendo o coração da vida, pulsando, invariável, no peito da Justiça Divina que manda, em toda parte, conferir a cada um segundo as próprias obras.</p>
</blockquote>

<div class="comentario">

  <p>Sobre a mesma vertigem de escala, por outra porta: em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=to_H4AbOp04"><em>Sabe com quem você está falando?</em></a>, Mario Sergio Cortella percorre com humor o tamanho do cosmos (bilhões de galáxias, bilhões de estrelas em cada uma, o Sol como astro modesto) para chegar ao ponto de que a arrogância humana não sobrevive a essa aritmética. Ele não faz afirmação teológica alguma ali, e a conclusão dele não é a de Emmanuel; mas o espanto diante da escala é o mesmo, e vale ouvir ao lado deste texto.</p>

  <p class="datacao">Trecho publicado originalmente em 2012, no blog anterior. Grifos meus. A nota sobre a palestra e a nota de rodapé foram acrescentadas em julho de 2026; a nota de rodapé é minha, não do original.</p>

</div>
<div class="footnotes" role="doc-endnotes">
  <ol>
    <li id="fn:1" role="doc-endnote">
      <p>Nota minha, não do original: as estimativas atuais situam o número de estrelas da Via-Láctea entre cem e quatrocentos bilhões, algo entre quinhentas e duas mil vezes a cifra de duzentos milhões que aparece aqui. O argumento do trecho, que é a modéstia da nossa posição no cosmos, não depende desse número, e um valor maior o reforçaria. <a href="#fnref:1" class="reversefootnote" role="doc-backlink">↩</a></p>
    </li>
  </ol>
</div>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[A questão 55 de O Livro dos Espíritos sobre a pluralidade dos mundos habitados, com a reflexão de Emmanuel escrita às vésperas da corrida à Lua.]]></summary></entry><entry><title type="html">A Instrução</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2012/04/a-instrucao/" rel="alternate" type="text/html" title="A Instrução" /><published>2012-04-06T00:00:00+00:00</published><updated>2012-04-06T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2012/04/a-instrucao</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2012/04/a-instrucao/"><![CDATA[<blockquote>
  <p><strong>“Espíritas; amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo.”</strong>
— <em>Espírito de Verdade</em></p>
</blockquote>

<blockquote>
  <p>A instrução é, sem dúvida, a milagrosa alavanca do progresso. Sem ela, perseveraria a mente humana nos resvaladouros da ignorância, confinada à miséria, à ociosidade, à indigência e ao infortúnio, através da delinquência na praça pública e da correção na penitenciária.</p>

  <p><strong>Mas não basta esclarecer a inteligência, repetiremos ainda e sempre. É imprescindível aperfeiçoar o coração nos caminhos do bem.</strong></p>

  <p>Nero, o tirano, era discípulo de Sêneca, o filósofo.</p>

  <p>Tito, o príncipe admirável, que costumava dizer “perdi o meu dia”, quando a noite o alcançava sem algum gesto excepcional de bondade, mandou massacrar mais de dez mil israelitas doentes, abatidos e mutilados, depois de arruinar Jerusalém.</p>

  <p>Marco Aurélio, o imperador virtuoso e sábio, consentiu no morticínio de cristãos indefesos.</p>

  <p>Inácio de Loiola, maravilhosamente bem-intencionado, tinha o cérebro cheio de letras quando incentivou a perseguição religiosa.</p>

  <p>Marat, o demagogo sanguinário, era jornalista de mérito e intelectual de renome.</p>

  <p>Todos os fazedores de guerra, ditadores e revolucionários, antigos e modernos, foram incubados no convívio de professores ilustres, de páginas científicas, de livros técnicos ou de universidades famosas.</p>

  <p><strong>Razão sem luz pode transformar-se em simples cálculo.</strong></p>

  <p>Instrução e ciência são portas de acesso à educação e à sabedoria.</p>

  <p>Quem apenas conhece nem sempre sabe.</p>

  <p>A cultura do espírito vai mais longe: ajuda o homem a converter-se em santuário vivo, através do qual se irradia o Poder Soberano e Misericordioso.</p>

  <p>Necessário, pois, semear pensamentos enobrecedores e santificantes, amparando a mente que recomeça a lição de aprimoramento individual.</p>

  <p>Esquecer a infância e a juventude será desprezar o futuro.</p>
</blockquote>

<p class="datacao">Trecho publicado originalmente em 2012, no blog anterior. Grifos meus, salvo o da epígrafe, que é do original.</p>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[Trecho do prefácio de Alvorada Cristã, por Emmanuel, sobre a diferença entre instrução e sabedoria, com exemplos históricos de eruditos cruéis.]]></summary></entry><entry><title type="html">Aos Obreiros do Senhor</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2011/10/aos-obreiros-do-senhor/" rel="alternate" type="text/html" title="Aos Obreiros do Senhor" /><published>2011-10-26T00:00:00+00:00</published><updated>2011-10-26T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2011/10/aos-obreiros-do-senhor</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2011/10/aos-obreiros-do-senhor/"><![CDATA[<blockquote>
  <p>Constitui funesto erro o supor-nos senhores e detentores da obra ingente e sobre-humana da regeneração social, ou seja, da redenção das almas aqui encarnadas.</p>

  <p><strong>Essa obra não é nossa.</strong> Não temos a envergadura e os requisitos para o desempenho de semelhante missão.</p>

  <p>Por misericórdia nos foi outorgada a oportunidade de desempenharmos certas tarefas de pouca monta dentro da imensidade daquele labor, de acordo com as nossas restritas e acanhadas possibilidades. Dizemos por misericórdia, porque se trata de facultar aos devedores os meios de ressarcirem seus débitos atrasados.</p>

  <p>A parte que toca a cada um de nós pode ser comparada às sombras de um grande quadro. Tomar, portanto, esta parte ínfima como sendo o quadro completo é simplesmente irrisório. Demais, essa pretensão pode inutilizar-nos, tornando-nos incapazes de fazer o mínimo de que fomos incumbidos. Seremos, nessa hipótese, substituídos, talvez com vantagem para a consecução da obra, e grande desproveito para nós.</p>

  <p>Não devemos supor que temos sobre nossos ombros o peso de responsabilidades que vão muito além das nossas forças. Deus não se equivoca nos programas que traça. Não nos exaltemos para que não sejamos humilhados.</p>

  <p>Consideremo-nos como obreiros de baixa classe, que realmente somos, cumprindo-nos sempre agir na esfera que nos foi determinada pelos legítimos executadores da majestosa edificação.</p>

  <p><strong>Não nos julguemos indispensáveis, nem mesmo necessários</strong>, por isso que das próprias pedras Deus pode suscitar filhos de Abraão. Outrossim, não computemos o tempo em nosso abono, porque há últimos que serão primeiros e primeiros que se tornarão derradeiros. Tampouco consideremos o vulto do que temos feito, porquanto o valor das nossas obras não se aquilatará pela quantidade, mas pela qualidade.</p>

  <p>Lembremo-nos da lição que nos oferece a Parábola dos trabalhadores das diversas horas do dia. A balança da Divina Justiça não acusa o peso material das nossas realizações, porém registra, com a máxima exação, a essência dos nossos feitos, isto é, os fatores ou motivos que os determinaram. A originalidade daquela balança está em desprezar o que se vê, para considerar o que não se vê. Se assim não fora, só os argentários lograriam realizar obras meritórias.</p>

  <p>Identifiquemo-nos, cada um de nós, com a parcela mínima do trabalho que nos foi determinado. Se devemos carregar a caçamba de reboco, não queiramos levantar colunas e erguer capitéis e pilastras. Melhor faz, e mais mérito tem, o servente humilde que não se descuida de seu mister, do que o oficial cuja imperícia e leviandade se tornam motivo de escândalo para todos. Transportemos a nossa pedra com boa vontade, sem presunção, pois o Supremo Arquiteto tomará na devida conta a nossa perseverança.</p>

  <p>Há obreiros humildes que passaram despercebidos aos olhos dos homens e hoje desfrutam, no Além, posição de destaque, pois “aqueles que me foram fiéis no pouco, o muito lhes será confiado”, conforme ensina a Parábola dos talentos. Outros há, cujos feitos o mundo encarece, completamente desconhecidos nos tabernáculos eternos. Os olhos de Deus não veem como os humanos. A sua potência visual penetra o âmago e os recônditos mais ocultos, enquanto a dos homens só descortina as exterioridades, sempre ilusórias e enganadoras.</p>

  <p>Muito recebe o que nada espera. Portanto, tomemos na merecida conta a seguinte advertência do Mestre:</p>

  <blockquote>
    <p>“Depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, pois só fizemos o que devíamos fazer.”
<em>(Lucas 17:10)</em></p>
  </blockquote>

  <blockquote>
    <p><strong>“Ninguém pense de si mesmo mais do que convém.”</strong></p>
  </blockquote>

  <p>Vigiemos e oremos, para que não se enfunem as velas da vaidade, arrastando o nosso barco para o sorvedouro. Não nos iludamos com as aparências. Toda obra que se cristaliza no personalismo já está condenada, porque importa no cabouqueiro arvorado em arquiteto.</p>

  <p>Afastemos, pois, da nossa mente, a falsa e perigosa ideia de sermos dirigentes, quando realmente devemos ser os dirigidos.</p>

  <p>O Espiritismo é doutrina dos Espíritos. Foi revelada por eles e compilada por Kardec. Seu objetivo é espiritualizar as almas reclusas no calabouço da carne, a fim de libertá-las. Seu reino, o de Jesus, cuja moral veio restaurar em sua primitiva pureza, não é deste mundo.</p>

  <p>Será, pois, de cima que virá sempre a ordem de comando. Sejamos servos diligentes e despretensiosos. Resignemo-nos a obedecer se quisermos, de fato, realizar, nesta existência, obra meritória.</p>

  <p>Tudo o mais são vaidades que se constituirão em fonte de decepções e de amarguras.</p>
</blockquote>

<p class="datacao">Trecho publicado originalmente em 2011, no blog anterior. Grifos meus, salvo o destaque de "Ninguém pense de si mesmo mais do que convém", que é do original.</p>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[Trecho de Na Seara do Mestre, de Vinícius, sobre a desproporção entre a tarefa que nos cabe e a obra inteira, e o perigo do personalismo no trabalho espírita.]]></summary></entry><entry><title type="html">A Paciência</title><link href="https://singelasreferencias.com.br/2011/09/a-paciencia/" rel="alternate" type="text/html" title="A Paciência" /><published>2011-09-28T00:00:00+00:00</published><updated>2011-09-28T00:00:00+00:00</updated><id>https://singelasreferencias.com.br/2011/09/a-paciencia</id><content type="html" xml:base="https://singelasreferencias.com.br/2011/09/a-paciencia/"><![CDATA[<blockquote>
  <p><strong>254. — Que é a paciência e como adquiri-la?</strong></p>

  <p>A verdadeira paciência é sempre uma exteriorização da alma que realizou muito amor em si própria, para dá-lo a outrem, na exemplificação.</p>

  <p>Esse amor é a expressão fraternal que considera todas as criaturas como irmãs, em todas as circunstâncias, sem desdenhar a energia para esclarecer a incompreensão, quando isso se torne indispensável.</p>

  <p>É com a iluminação espiritual do nosso íntimo que adquirimos esses valores sagrados da tolerância esclarecida. E, para que nos edifiquemos nessa claridade divina, faz-se mister educar a vontade, curando enfermidades psíquicas seculares que nos acompanham através das vidas sucessivas, quais sejam as de abandonarmos o esforço próprio, de adotarmos a indiferença e de <strong>nos queixarmos das forças exteriores, quando o mal reside em nós mesmos.</strong></p>

  <p>Para levarmos a efeito uma edificação tão sublime, necessitamos começar pela disciplina própria e pela continência dos nossos impulsos, considerando a liberdade do mundo interior, de onde o homem deve dominar as correntes da sua vida.</p>

  <p>O adágio popular considera que “o hábito faz a segunda natureza” e nós devemos aprender que <strong>a disciplina antecede a espontaneidade</strong>, dentro da qual pode a alma atingir, mais facilmente, o desiderato da sua redenção.</p>
</blockquote>

<p class="datacao">Trecho publicado originalmente em 2011, no blog anterior. Grifos meus.</p>]]></content><author><name>Winicius B. Faquieri</name></author><summary type="html"><![CDATA[Questão 254 de O Consolador, de Emmanuel pela psicografia de Chico Xavier, sobre a paciência como fruto do amor e da disciplina própria.]]></summary></entry></feed>