“É um erro crasso teorizar antes de ter os fatos. Imperceptivelmente, começamos a distorcer os fatos para adaptá-los à teoria, em vez de buscar teorias que se apliquem aos fatos.” — Sherlock Holmes


O Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental. Fatos novos se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega às leis que os regem; depois deduz-lhes as consequências e busca as aplicações úteis.

Não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; assim, não apresentou como hipóteses a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da doutrina; concluiu pela existência dos Espíritos quando essa existência ressaltou evidente da observação dos fatos, procedendo de igual maneira quanto aos outros princípios.

Não foram os fatos que vieram, *a posteriori*, confirmar a teoria: a teoria é que veio, subsequentemente, explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação.

Citemos um exemplo: passa-se no mundo dos Espíritos um fato muito singular, de que seguramente ninguém houvera suspeitado: o de haver Espíritos que não se consideram mortos.

Pois bem, os Espíritos superiores, que conhecem perfeitamente esse fato, não vieram dizer antecipadamente: “Há Espíritos que julgam viver ainda a vida terrestre, que conservam seus gostos, costumes e instintos.” Provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria para que os observássemos.

Tendo-se visto Espíritos incertos quanto ao seu estado, ou afirmando ainda serem deste mundo, julgando-se aplicados às suas ocupações ordinárias, deduziu-se a regra. A multiplicidade de fatos análogos demonstrou que o caso não era excepcional, que constituía uma das fases da vida espírita; pôde-se então estudar todas as variedades e as causas de tão singular ilusão, reconhecer que tal situação é sobretudo própria de Espíritos pouco adiantados moralmente e peculiar a certos gêneros de morte; que é temporária, podendo, todavia, durar semanas, meses e anos.

Foi assim que a teoria nasceu da observação. O mesmo se deu com todos os outros princípios da doutrina.

Publicado originalmente em 3 de julho de 2011, no blog anterior. A epígrafe é de Sherlock Holmes, personagem de Arthur Conan Doyle. O destaque no terceiro parágrafo é meu.