Perispírito
O perispírito, ainda que invisível para nós no estado normal, não é por isso menos matéria etérea. O Espírito pode, em certos casos, fazê-lo experimentar uma espécie de modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível; é assim que se produzem as aparições. Esse fenômeno não é mais extraordinário que o do vapor, que é invisível quando está muito rarefeito e que se torna visível quando está condensado.
Os Espíritos que se tornam visíveis se apresentam, quase sempre, sob a aparência que tiveram em sua vida e que pode fazê-los reconhecer.
A visão permanente e geral dos Espíritos é muito rara, mas as aparições isoladas são bastante frequentes, sobretudo no momento da morte; o Espírito liberto parece apressar-se em rever seus parentes e amigos, como para adverti-los que acaba de deixar a Terra e lhes dizer que vive sempre. Que cada um medite suas lembranças e verá quantos fatos autênticos desse gênero, dos quais não se apercebeu, ocorreram não só à noite, durante o sono, mas em plena luz do dia, no estado de vigília mais completo. Outrora, consideravam-se esses fatos como sobrenaturais e maravilhosos, e se os atribuía à magia e à feitiçaria; hoje os incrédulos os atribuem à imaginação; mas, desde que a ciência espírita deles deu a chave, sabe-se como eles se produzem e que não saem da ordem dos fenômenos naturais.
Era com a ajuda do seu perispírito que o Espírito agia sobre seu corpo físico; é ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte; que ele produz os ruídos, os movimentos de mesas e outros objetos, que ele eleva, derruba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente se considerar que, entre nós, os mais possantes motores usam os fluidos mais rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade.
Igualmente, é com a ajuda do seu perispírito que o Espírito faz o médium escrever, falar ou desenhar. Não tendo mais corpo tangível para agir ostensivamente, quando quer se manifestar, ele se serve do corpo do médium, do qual empresta os órgãos, com os quais age como se fora com seu próprio corpo, e isso pelo eflúvio fluídico que derrama sobre ele.
No fenômeno designado sob o nome de mesas moventes ou mesas falantes, é pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, seja para fazê-la mover sem significação determinada, seja para dar pancadas inteligentes indicando as letras do alfabeto para formar palavras e frases, fenômeno designado sob o nome de tiptologia. A mesa, aqui, não é senão um instrumento do qual ele se serve, como o faz com o lápis para escrever; ele lhe dá uma vitalidade momentânea pelo fluido que a penetra, mas não se identifica com ela. As pessoas que, em sua emoção, vendo se manifestar um ser que lhes é caro, abraçam a mesa, fazem um ato ridículo, porque é absolutamente como se abraçassem uma bengala da qual um amigo se serve para dar pancadas. Ocorre o mesmo com aqueles que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na madeira, ou como se a madeira se tivesse tornado Espírito.
Quando as comunicações ocorrem por esse meio, é preciso representar o Espírito, não na mesa, mas ao seu lado, tal como era vivo, e tal como seria visto se, nesse momento, ele pudesse se tornar visível. A mesma coisa ocorre nas comunicações escritas; ver-se-ia o Espírito ao lado do médium, dirigindo sua mão ou lhe transmitindo seu pensamento por uma corrente fluídica.
Quando a mesa se destaca do solo e flutua no espaço sem ponto de apoio, o Espírito não a ergue com o braço, mas a envolve e a penetra com uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza os efeitos da gravitação, como faz o ar nos balões e nos papagaios de papel. O fluido do qual ela está penetrada lhe dá, momentaneamente, uma leveza específica maior. Quando ela está colada ao chão, está em caso análogo ao da campânula pneumática sob a qual se faz o vácuo. Estas não são comparações senão para mostrar a analogia dos efeitos, mas não a semelhança absoluta das causas.
Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito que corre, porque ele pode ficar tranquilamente no mesmo lugar, mas que a impulsiona por uma corrente fluídica, com a ajuda da qual a faz mover-se à sua vontade. Quando as pancadas se fazem ouvir na mesa ou em outro lugar, o Espírito não bate nem com a mão nem com um objeto qualquer; ele dirige sobre o ponto de onde parte o barulho um jato de fluido que produz o efeito de um choque elétrico. Ele modifica o barulho, como se podem modificar os sons produzidos pelo ar.
Compreende-se, segundo isso, que não é mais difícil ao Espírito erguer uma pessoa do que erguer uma mesa, transportar um objeto de um lugar para outro ou lançá-lo em qualquer parte; esses fenômenos se produzem em razão da mesma lei.
Trecho publicado originalmente em 2011, no blog anterior. Grifos meus, salvo o realce de "tiptologia", que é do original.