Yvonne Pereira via o espírito de Camilo Castelo Branco desde os seus doze anos, embora não soubesse de quem se tratava. Era um espírito que dela se aproximava na companhia de Roberto e Charles, que foram seus orientadores no Hospital Maria de Nazaré, instituição espiritual dedicada ao atendimento de suicidas e que acolheu o conhecido escritor na vida de além-túmulo.

No livro Memórias de um Suicida podemos acompanhar a trajetória desse espírito após o suicídio, cometido em 1º de junho de 1890. As agruras do Vale Sinistro, o labor da Legião dos Servos de Maria, o processo de reajustes conscienciais de um suicida, o trabalho de socorro em grupos mediúnicos, os estudos e reflexões a que se entrega o espírito suicida no intuito de reeducar-se para os verdadeiros valores da vida: todas essas lições estão registradas nas páginas desse importante tratado.

Através das eloquentes memórias desse espírito que, quando encarnado, empolgou a sociedade de sua época com seu estilo inconfundível, estilo que até os dias atuais ainda prende e encanta o leitor, vamos anotar a sua revelação sobre uma próxima reencarnação. Sim, Camilo tinha necessidade de reencarnar para, mergulhado no esquecimento, tentar reparar o imenso mal causado a si mesmo com a fuga da realidade.

Aliás, um dos mais significativos “remédios evolutivos”, não apenas para espíritos suicidas como para todos os que necessitam de reajustes, é a reencarnação. Reencarnar é catalisar a evolução do espírito, permitindo-lhe, no contato com o mundo físico, acelerar o seu processo de amadurecimento espiritual.

Foi a iminência dessa reencarnação que impediu o escritor desencarnado, inclusive, de levar à frente o trabalho de organização e revisão de Memórias de um Suicida para sua posterior publicação. A revisão, a propósito, somente foi realizada um ano após a publicação da primeira edição da obra, ou seja, em 1957, pelo espírito Léon Denis.

Depois de um longo tirocínio de aprendizado espiritual, realizado entre o hospital e a universidade espirituais a que se vinculara durante cerca de quarenta anos, Camilo sentiu, em seu coração, a necessidade de reencarnar. E como seria essa nova encarnação?

Segundo suas próprias informações, nessa nova existência ele deveria ser médium curador, em face dos serviços prestados no Hospital Maria de Nazaré nas tarefas junto às enfermarias.

Além disso, conforme palavras de Yvonne, Camilo veio despedir-se dela, anunciando sua reencarnação, em fevereiro de 1948. Segundo ela mesma afirma, o escritor português regressaria à sua Portugal de outrora. Sabe-se, ainda, que aos quarenta anos de idade ficaria irremediavelmente cego, revivendo as duras provações que o arrastaram para o suicídio, e que depois disso mais vinte anos amargaria na vida física, vindo a desencarnar aos sessenta anos. Estando correta essa estimativa de datas, isso ocorreria no ano de 2008.

Certo é, realmente, que a reencarnação do ilustre suicida se efetivou, para seu benefício e dos que o amam. Embora levasse consigo um mundo de incertezas quanto aos sucessos da nova empreitada, Camilo Castelo Branco guardava a esperança de dias melhores:

“[…] meus instrutores advertiram-me de que levarei sólidos elementos de vitória adquiridos no longo estágio reeducativo, e que por isso mesmo será bem pouco provável que a minha vontade se corrompa ao ponto de me arrastar a maiores e mais graves responsabilidades.”

Trecho publicado originalmente em 10 de julho de 2011, no blog anterior. O destaque no quarto parágrafo é meu.