Na reunião íntima, o benfeitor espiritual Bittencourt Sampaio falava pelo médium, com propriedade e beleza.

Em certo ponto da preleção, dizia, veemente:

— Revelamos os nossos sinais dominantes nas manifestações pequeninas. Cada um tem reflexos diferentes. O heroísmo na praça pública pode ser mero fruto de circunstâncias especiais. É o cotidiano que nos revela o íntimo, nos gestos mais apagados, nas mínimas ações. A maldade aparece num ato de cólera. A calúnia, por vezes, se entremostra numa simples palavra. A leviandade vem à baila num vago sorriso. A avareza, em muitas ocasiões, surge num vintém…

Nisso, alguém bate à porta cerrada. E o silêncio cai, pesado, no ânimo dos ouvintes…

O visitante, não se vendo logo atendido, insiste com mais força.

Pancadas violentas: duas, três, cinco vezes…

O instrutor desencarnado retoma a palavra e explica:

— Estudemos. A pessoa que nos procura talvez seja um modelo de cortesia na vida social; entretanto, pelo seu comportamento atrás da porta, anuncia claramente que um dos seus reflexos mais altos é a impaciência.

Publicado originalmente em 13 de fevereiro de 2011, no blog anterior. O destaque é meu.