Ao que devo, sim, o mais dos frutos do meu trabalho, a relativa exuberância de sua fertilidade, a parte produtiva e durável da sua safra, é às minhas madrugadas. Menino ainda, assim que entrei ao colégio, alvidrei eu mesmo a conveniência desse costume, e daí avante o observei, sem cessar, toda a vida. Eduquei nele o meu cérebro, a ponto de espertar exatamente à hora que comigo mesmo assentava ao dormir. Sucedia, muito amiúde, encetar eu a minha solitária banca de estudo à uma ou duas da antemanhã. Muitas vezes me mandava logo após à cama, daquelas amadas lucubrações, as de que me lembro com saudade mais deleitosa e estranhável.

Tenho, ainda hoje, convicção de que nessa observância persistente está o segredo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no trabalho, mas de quantas vantagens alcancei levar aos meus concorrentes, em todo o andar dos anos, até a velhice. Muito há que já não subtraio tanto às horas da cama, para acrescentar às do estudo. Mas o sistema ainda perdura, bem que largamente cerceado nas antigas imoderações. Até agora, nunca o sol deu comigo deitado, e, ainda hoje, um dos meus raros e modestos desvanecimentos é o de ser grande madrugador, madrugador impenitente.

Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.

Durante quinze anos, este blog atuou predominantemente como um acervo ou uma biblioteca: as estantes foram sendo preenchidas, pouco a pouco, com as vozes de grandes pensadores. Mas os livros existem para algo maior do que repousar nas prateleiras. Há um tempo para recolher; há outro para transformar. Talvez o Singelas Referências esteja entrando justamente nesse segundo momento. Menos um arquivo de pensamentos alheios, mais um espaço onde essas ideias, depois de amadurecidas, possam florescer em reflexões próprias.

Trecho publicado originalmente em 2011, no blog anterior. Nota acrescentada em julho de 2026.