Abaixemos, portanto, as luzes e entremos no Templo do pensamento. Vamos penetrar num mundo de vibrações delicadas, de formas fugidias, que o pensamento cria e destrói, mundo de fenômenos evanescentes e sutis e, no entanto, reais.

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Começo do exterior, da superfície, da descrição do ambiente. Não posso escrever em qualquer lugar. Num ambiente de desmazelo, desordenado, desarmônico, não asseado, novo para mim, não impregnado de minhas longas pausas do meu estado de ânimo dominante, não harmonizado com a cor psíquica de minha personalidade, não posso escrever senão mal e com esforço. Eis-me, ao contrário, em meu pequeno gabinete, ambiente de paz, onde os objetos expressam minha própria pessoa, onde a atmosfera é ressoante de minhas vibrações e tudo, por comunhão de vida, está sintonizado com meu temperamento. Por aí me deter, longamente, para pensar e escrever, saturei as paredes, a mobília, os objetos, de um particular tipo de vibração, que agora a mim retorna como uma música que harmoniza o meu pensamento.

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É noite, aproximadamente dez horas. É ótima hora, em que minha capacidade receptiva se intensifica, até cerca de 1h da madrugada, em que diminui, então, por cansaço. Existe um antagonismo entre meu pensamento e a forte radiação solar; parece que a luz embaraça minhas funções inspirativas, neutralizando as correntes psíquicas que me circundam. Amo as luzes tênues, difusas, coloridas, que deixam vaguear os objetos nos contornos indefinidos da penumbra.

Li que quando Chopin improvisava, fazia baixar as luzes e procurava a “nota azul”, que devia ser a nota de sintonização entre sua alma e a do público.

No meu caso, o público está materialmente distante, mas espiritualmente está presente e próximo, e eu o sinto, imenso, estrondeando mil vozes: é a alma do mundo.

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Assim, uso a música como outro meio inicial de sintonização de ambiente, a fim de que me ajude a saltar da harmonização nesse primeiro plano sensório exterior, para minha harmonização nos mais altos planos supersensórios; essa música obtenho através do rádio e do disco, especialmente a melhor música sinfônica, tipo Wagner, Beethoven, Bach, Chopin e outros.

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As harmonias musicais da audição se transformam nas mais profundas harmonias dos conceitos. Música suave, e em torno, silêncio completo. Luzes moderadas, em tom menor, em torno, tudo escuro. Minha alma é uma chama que arde na noite.

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Atravessada essa primeira fase de negação sensória, desperto além da vida normal numa outra consciência. Adormentados os sentidos, desaparecido de minha percepção o mundo concreto que me circunda, posso abismar-me na vertigem da abstração. Não estou morto, nem passivo, nem inconsciente, porque todas as sensações da vida retornam, mas com uma potencialização nova e maravilhosa de todas as faculdades de minha personalidade, com um vigor e uma profundeza de percepção e ainda com um lirismo de afetividade que antes desconhecia; parece que somente agora, despida a alma de sua veste corpórea, ela poderia revelar-se inteiramente.

O pensamento regressa, mas com uma sensação de potência titânica, com uma profunda lucidez de visão, com uma rapidez vertiginosa de concepção; percebo-o despojado de palavras, em sua essência. Sou possuído de uma sensação de leveza e de libertação de véus e limitações; sinto dotada minha consciência do poder da intuição e do domínio de uma nova dimensão conceptual. Despertou-se-me um olhar mais penetrante, que vê o interior e não mais somente a superfície, que regista nas coisas não só reflexos óticos, mas também psíquicos; esse novo olhar já não é interceptado pela forma, mas penetra diretamente na substância, buscando o conceito genético, o princípio que anima e governa as coisas. Vejo, então, o que se encontra além da realidade sensória do mundo exterior, isto é, as forças que o movimentam e lhe mantêm o funcionamento orgânico. Essas forças tornam-se vivas, os fenômenos me aparecem com uma vontade própria de existência, uma potência de individualidade que investe sobre mim e grita: eu sou.

Cada forma se reveste de um hálito divino de conceito que eu respiro; é então que sinto, verdadeiramente, que o universo é um grande organismo dirigido pelo pensamento de Deus. Tudo possui, então, uma voz e me fala; todas as forças, todos os fenômenos, toda a vida, desde o mineral, todas as criaturas de Deus irradiam um cântico que eu escuto e percebo harmonizar-se na sinfonia imensa da criação. Desenvolve-se um colóquio íntimo que registo; despertaram todas as criaturas irmãs e me olham dizendo: “Quem és tu que ouves? Escuta-nos, nós te falamos”.

O colóquio torna-se, então, um imenso amplexo, um perder-se de aniquilamento no seio de uma luz resplandecente. A ciência é um cântico e uma oração. Abre-se o abismo do mistério e contemplo: é uma visão, um êxtase. Mais não sei dizer.

[…]

Torno a cair, então, na realidade cotidiana, onde os outros têm razão e não eu. A visão desfaz-se, o céu se fecha. Estou sozinho. Novamente encontro o trabalho e o cansaço da vida e retomo o peso da minha luta de cada dia.

Tenho, pois, a sensação de que existem em mim duas consciências, colocadas e operantes em planos visuais distintos. Elas se excluem mutuamente e me disputam o campo da personalidade, que não podem possuir plenamente, senão cada uma por sua vez. É necessário, antes, que eu adormeça, como num sonho, e é nesse sonho que o meu eu pode transferir-se à consciência mais profunda.

Este trecho é a oficina de A Grande Síntese.

A recepção que Ubaldi anatomiza no capítulo II é a daquela obra, recebida ao longo de quatro verões, de 1932 a 1935. Não é relato de experiência avulsa: é a descrição do processo que produziu um livro, e o livro está aí, inteiro, para quem quiser conferir.

Chama atenção a concretude do caminho. Ele começa pelo mobiliário. A hora do relógio, a intensidade da luz, o disco que está tocando, a sala que ele saturou das próprias vibrações de tanto pensar dentro dela. Só depois vem a visão, e da visão ele diz que não sabe dizer mais. Descreve o indizível como indizível e todo o resto como procedimento, com o cuidado de quem espera ser conferido.

Vale reparar no que ele chama de harmonização, porque não é técnica de concentração. É afinação moral. Num dos parágrafos que ficaram de fora deste recorte ele escreve que “não se pode imaginar o poder de harmonização que emana de um ato de bondade”, e que “para conquistar o conhecimento, devo alcançar um estado de purificação”. A condição de subir é a mesma coisa que a condição de melhorar. Daí a frase que grifei, que de outro modo pareceria só bonita: a ciência é um cântico e uma oração.

Adiante no capítulo ele dá nome ao que está fazendo. Chama de método da intuição, e o propõe como mais poderoso que o indutivo-experimental: o método interior da visão contra o método exterior da observação. O que se lê aqui é esse método em operação, antes de receber o nome.

E é ali também que ele encara de frente a pergunta que Camille Flammarion fez a si mesmo: o escrito excede o que o escritor tinha condição de produzir? “Se o escrito supera a potência cultural e intelectiva do escritor, deve existir em algum lugar uma fonte que a tudo isso deu origem.” É o mesmo teste, aplicado por dois médiuns à própria obra, com respostas opostas. Flammarion olhou para a “Uranografia” e não achou nada que o rapaz de dezenove anos já não soubesse. Ubaldi aponta para A Grande Síntese e diz o contrário. Nos dois casos o texto está publicado, o que quer dizer que a conta pode ser refeita.

E fica o fim, que é a parte que menos costuma ser citada. Ele volta, o céu se fecha, e ele está sozinho na realidade onde os outros têm razão e não ele.

Trecho do capítulo II de As Noúres, de Pietro Ubaldi, na tradução de Clóvis Tavares (5ª ed., Fraternidade Francisco de Assis / Instituto Pietro Ubaldi, 2001), reproduzido para fim de comentário, nos termos do art. 46, III, da Lei 9.610/98. Os cortes estão marcados com [...]. Os dois grifos em negrito são meus.