No dia 02 de novembro de 1861 o jovem astrônomo Camille Flammarion, com apenas 19 anos de idade, apresentou uma carta a Kardec solicitando autorização para participar da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Ele já se interessava pelos fenômenos mediúnicos e estava escrevendo um livro, publicado no ano seguinte, intitulado Os habitantes do outro mundo – Revelações do além-túmulo, escrito a partir de comunicações da Srta. Huet.1

Ao longo dos anos seguintes, Camille Flammarion participou ativamente da Sociedade de Paris, tendo psicografado vários textos que passaram a integrar os livros de Allan Kardec, dentre eles o icônico capítulo VI do livro A Gênese, intitulado Uranografia Geral, um extenso tratado de astronomia que ocupa 30 páginas no original francês. Psicografou também o item 15 do cap. IX, “Aumento e diminuição do volume da Terra”, ambos assinados pelo espírito Galileu Galilei. Astrônomo muito popular na França, mesmo após ter se desligado da Sociedade de Paris ele continuou estudando os fenômenos mediúnicos, do que resultaram alguns títulos entre os nada menos que 35 de sua autoria.

Apesar dessa importante participação na elaboração do Espiritismo, em 1899 ele estava “mais convencido do que nunca de que somos muito ignorantes” a respeito da fenomenologia mediúnica. No que se refere ao seu próprio trabalho ele havia concluído que se tratava apenas de um fenômeno de exteriorização da sua própria mente, e que os conteúdos ali expressos eram apenas os conhecimentos que ele havia adquirido como astrônomo.2 De fato, o tempo havia deixado claro que os textos que ele havia psicografado na sua juventude não traziam quaisquer conteúdos que transcendessem ao que já se sabia sobre astronomia naquela época, os quais foram inteiramente reformulados antes de 1925, quando do seu falecimento, aos 83 anos de idade.

Para se imaginar a amplitude dessas reformulações basta lembrar que em 1905, com base nas teorias das ondas eletromagnéticas de Maxwell, Albert Einstein publicou a Teoria Geral da Relatividade, impactando todo o conhecimento anterior sobre Física, Astronomia e Astrofísica.3

[…] o que ele questionava era o processo mediúnico que, no seu entendimento, carecia de mais amplos estudos. Diversos pesquisadores já haviam demonstrado que a mente do médium responde por uma grande quantidade das comunicações atribuídas aos espíritos, e ele concluía que grande parte dos textos pretensamente psicografados por ele e seus colegas da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas poderiam ser apenas o resultado de processos anímicos, exteriorização da consciência dos próprios médiuns.

Esses e inúmeros outros fatos nos obrigam a analisar se textos produzidos pela via mediúnica podem ser detentores de uma verdade a-histórica, transcendente, como se pensa.

Guardo o trecho pelo que ele documenta, não pelo que conclui.

O fato é este: o médium do capítulo VI de A Gênese, o tratado de astronomia assinado pelo espírito de Galileu, viveu o bastante para examinar a própria produção de juventude e concluiu que ali não havia nada além do que o rapaz de dezenove anos já sabia. Quem aplicou o teste foi ele mesmo, e o teste é o mais simples que existe: o texto trouxe alguma coisa que o médium não tinha como saber?

Um contraponto que podemos fazer aqui é que nem toda comunicação precisa trazer novidades. O Livro dos Espíritos reúne 1019 questões, por exemplo: será que algum leitor esperaria novidade em todas elas? Muitas vezes a mediunidade vai confirmar verdades já conhecidas, ou trazer consolação a corações que sofrem. Por outras palavras, a não novidade de conteúdo não inviabiliza a verdade do fenômeno.

Muito provavelmente, não foi esse o único critério de Flammarion. O que quero reforçar aqui é que o processo mediúnico pode ser mais complexo do que se imagina à primeira vista.

Elias Moraes faz questão de precisar o alcance da retratação, e a precisão importa. Flammarion não negou o fenômeno nem abandonou a pesquisa, que o ocupou pelo resto da vida. Negou a atribuição: a confiança com que se lê uma assinatura no fim de um texto psicografado. E não falava só de si, mas dos colegas e do método da casa.

Fica para depois o outro lado da questão, que é ler o próprio Flammarion. As Forças Naturais Desconhecidas está citado aí em nota e é o lugar onde ele diz isso com as próprias palavras. Comentar um autor pela boca de quem o cita é começo de conversa, não fim.

Trechos de O Processo Mediúnico, de Elias Inácio de Moraes (Aephus, 2023), reproduzidos para fim de comentário, nos termos do art. 46, III, da Lei 9.610/98. Os dois grifos em negrito no trecho são meus. As notas 1 e 2 são do original; a nota 3 é minha. O [...] no quinto parágrafo suprime uma frase de abertura que atribui a posição contestada a interlocutores não identificados.

  1. Nota do original: Seth, Carlos. Investigação sobre as Sessões Mediúnicas da Codificação – Casos Arquivados. Artigo disponível em 05/07/2022 em www.autoresespiritasclassicos.com. 

  2. Nota do original: Flammarion, Camille. As Forças Naturais Desconhecidas, pág. 44. Trad. Maria Alice F. Antonio, Ed. Conhecimento, Limeira/SP, 2011. 

  3. Nota minha, não do original: 1905 é o ano da relatividade restrita. A relatividade geral é de 1915. A troca não afeta o argumento do autor, que é a magnitude da reformulação ocorrida em vida de Flammarion, mas convém não repetir a data errada em citação de segunda mão.